Trespasse de Negócio em Portugal: Guia Completo 2026
Guia definitivo sobre trespasse de estabelecimento comercial em Portugal. Legislação, fiscalidade, documentação, direitos do senhorio e como calcular o valor. Atualizado com as novas regras de 2025/2026.
O que é trespasse de negócio em Portugal?
O trespasse é a transmissão definitiva da propriedade de um estabelecimento comercial ou industrial, incluindo todos os elementos (bens, clientela, licenças, contratos). Está regulado pelo artigo 1112.º do Código Civil e não requer escritura pública - basta contrato escrito. O senhorio deve ser notificado com 15 dias de antecedência e tem direito de preferência.
Fonte: Artigo 1112.º do Código Civil Português
Sumário Executivo
O trespasse de negócio é uma das formas mais comuns de adquirir um estabelecimento comercial em Portugal. Diferente da cessão de quotas (onde se compra a sociedade), no trespasse compra-se diretamente o estabelecimento - a loja, o café, o restaurante - com toda a sua organização produtiva.
Ponto Principal: O trespasse permite adquirir um negócio já em funcionamento, com clientela estabelecida, fornecedores e licenças, sem assumir as dívidas da sociedade anterior (salvo acordo expresso).
Aviso Importante: Com as alterações legais de 2025/2026, o trespasse está sujeito a maior escrutínio fiscal, laboral e regulatório. Um trespasse mal estruturado pode resultar em litígios significativos e perda de valor. Recomenda-se sempre consultar um advogado especializado.
O Que é Exatamente o Trespasse?

O trespasse está definido no artigo 1112.º do Código Civil como a transmissão definitiva da propriedade de um estabelecimento comercial ou industrial. Esta transmissão assegura o subingresso de um novo sujeito no exercício da atividade empresarial, garantindo a continuidade da exploração dos valores económicos e produtivos do estabelecimento.
Elementos Incluídos no Trespasse
Quando se realiza um trespasse, transmitem-se tipicamente:
| Elemento | Descrição | Transferência |
|---|---|---|
| Fundo de Comércio | Clientela, localização, reputação | Automática |
| Bens Móveis | Equipamentos, mobiliário, stock | Supletiva (salvo acordo) |
| Licenças | Alvarás, licenças de atividade | Requer comunicação às autoridades |
| Contratos | Fornecedores, prestadores de serviços | Requer consentimento ou novação |
| Arrendamento | Posição de arrendatário | Automática (art. 1118.º CC) |
| Trabalhadores | Contratos de trabalho | Mantêm-se (art. 285.º Código Trabalho) |
Requisito Fundamental: Manutenção do Ramo de Atividade
Para que o trespasse seja válido, o ramo de negócio deve manter-se o mesmo. A Lei determina expressamente que não há trespasse se, no momento do negócio, existia intenção de exercer no imóvel outro ramo de comércio ou indústria.
Exemplo: Transformar um snack-bar num restaurante constitui criação de novo estabelecimento, não trespasse. Isto pode invalidar o direito de sub-rogação no arrendamento e sujeitar a operação a tratamento fiscal diferente.
Trespasse vs. Cessão de Quotas: Qual Escolher?
Uma das dúvidas mais frequentes é quando usar trespasse e quando usar cessão de quotas. São operações fundamentalmente diferentes:
| Aspeto | Trespasse | Cessão de Quotas |
|---|---|---|
| O que se transmite | Estabelecimento (ativos) | Participações sociais (empresa) |
| Dívidas | Não se transferem (salvo acordo) | Transferem-se com a sociedade |
| Passivos ocultos | Menor risco | Maior risco |
| Licenças | Podem exigir nova emissão | Mantêm-se na sociedade |
| Contrato de trabalho | Transferência automática | Mantêm-se na sociedade |
| Fiscalidade | IMT, IVA, mais-valias | IRC sobre mais-valias |
| Complexidade | Menor | Maior |
Quando Usar Trespasse
O trespasse é preferível quando:
- Se pretende adquirir apenas o estabelecimento operacional
- A sociedade tem dívidas ou passivos que não se deseja assumir
- O negócio funciona em espaço arrendado
- Se trata de pequenos negócios (cafés, restaurantes, lojas)
Quando Usar Cessão de Quotas
A cessão de quotas é preferível quando:
- A sociedade detém ativos valiosos (imóveis, licenças especiais)
- Existem benefícios fiscais acumulados (prejuízos, créditos)
- Os contratos importantes estão em nome da sociedade
- Se pretende continuidade jurídica total
Dica: Independentemente da opção escolhida, é essencial conhecer os métodos de avaliação empresarial para negociar o preço justo.
O Direito do Senhorio no Trespasse
Uma das particularidades do trespasse é a relação com o senhorio do imóvel arrendado. O artigo 1118.º do Código Civil permite a transmissão da posição do arrendatário sem dependência de autorização do senhorio em caso de trespasse.
Comunicação Obrigatória
Embora não necessite de autorização, o trespasse deve ser comunicado ao senhorio:
- Prazo: Carta registada com aviso de receção, com antecedência mínima de 15 dias
- Conteúdo: Identificação do trespassário, condições do trespasse
- Consequência da omissão: Direito do senhorio resolver o contrato
Direito de Preferência
O senhorio possui direito de preferência sobre o trespasse, nos termos do artigo 1102.º do Código Civil:
- O trespassante deve notificar o senhorio das condições do negócio
- O senhorio tem 8 dias para exercer a preferência
- Silêncio após 8 dias implica renúncia ao direito
Atenção: O senhorio pode resolver o contrato de arrendamento se não se verificar a manutenção do ramo de negócio após o trespasse.
Exceções ao Direito de Sub-rogação
A transmissão automática da posição de arrendatário não se aplica quando:
- Existe cláusula contratual válida em contrário
- O destino do imóvel vai ser alterado
- Há intenção de mudar o ramo de atividade
Fiscalidade do Trespasse
A tributação do trespasse envolve vários impostos, dependendo da estrutura da operação:
IMT (Imposto Municipal sobre Transmissões)
| Situação | Taxa IMT | Observações |
|---|---|---|
| Trespasse só com fundo de comércio | Isento | Sem imóvel ou direito real |
| Trespasse com arrendamento comercial | 6,5% | Sobre valor do trespasse |
| Trespasse com imóvel próprio | 6,5% (comercial) | Pode chegar a 7,5% |
Base de cálculo: O IMT incide sobre o valor do trespasse quando inclui posição de arrendatário ou transmissão de imóvel.
IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado)
O trespasse pode estar:
- Isento de IVA (artigo 3.º, n.º 4 do CIVA) - quando é transmissão universal do estabelecimento como unidade económica
- Sujeito a IVA 23% - quando os bens corpóreos são faturados separadamente (mais de 10% do valor total)
Regra prática: Se o trespasse é global e inclui toda a unidade económica em funcionamento, beneficia geralmente de isenção de IVA.
Mais-Valias (IRS/IRC)
A diferença entre o valor de venda e o custo de aquisição constitui mais-valia tributável:
| Regime | Taxa | Observações |
|---|---|---|
| Pessoa Singular (IRS) | Até 48% | 50% da mais-valia é tributada aos escalões |
| Pessoa Coletiva (IRC) | 21% + derrama | Pode deduzir se reinvestir |
Exemplo de cálculo (pessoa singular):
Valor de Trespasse: €100.000
Custo de Aquisição: €60.000
Mais-valia Bruta: €40.000
Mais-valia Tributável (50%): €20.000
Imposto (escalão médio 35%): €7.000
Imposto de Selo
Aplica-se 0,8% sobre o valor do trespasse (Tabela Geral do Imposto de Selo), pago em 30 dias após a escrituração do contrato.
Documentação Necessária para o Trespasse
Documentos do Estabelecimento
Documentação a Reunir
- Inventário detalhado e atualizado de todos os bens
- Contratos em vigor (arrendamento, fornecedores, trabalhadores)
- Licenças de atividade e alvarás
- Balanços e demonstrações financeiras (últimos 3 anos)
- Certidões fiscais (AT, Segurança Social)
- Registo de trabalhadores
- Certificação energética (se aplicável)
- Relatório de avaliação independente (obrigatório desde 2025)
O Contrato de Trespasse
O contrato de trespasse deve ser obrigatoriamente escrito (artigo 1112.º, n.º 3 do CC), sob pena de nulidade. Não é necessária escritura pública.
Cláusulas essenciais:
- Identificação das partes (trespassante e trespassário)
- Descrição completa do estabelecimento e elementos transmitidos
- Preço e forma de pagamento
- Data de entrega e tomada de posse
- Declarações e garantias do vendedor
- Cláusula de não concorrência (fundamental!)
- Condições suspensivas (se aplicável)
Obrigação de Não Concorrência
O trespassante assume obrigação implícita de não concorrência, mesmo que não esteja expressa no contrato:
- Aplica-se diretamente ou através de interposta pessoa
- Abrange período razoável após o trespasse (tipicamente 2-5 anos)
- Inclui área geográfica de influência do estabelecimento
Jurisprudência: Os tribunais portugueses admitem a desconsideração da personalidade jurídica quando uma sociedade é criada especificamente para contornar a obrigação de não concorrência.
Como Calcular o Valor de um Trespasse
Não existe fórmula legal para calcular o valor de um trespasse. O preço resulta da negociação entre as partes, considerando:
Métodos de Avaliação
| Método | Fórmula Indicativa | Quando Usar |
|---|---|---|
| Múltiplo de Lucros | 2-4x Lucro Líquido Anual | Negócios estáveis e rentáveis |
| Múltiplo de Faturação | 0,3-1x Volume de Negócios | Negócios em crescimento |
| Valor dos Ativos | Stock + Equipamentos + Fundo | Negócios com ativos tangíveis |
Exemplo Prático de Avaliação
Café/Snack-bar em Lisboa:
Faturação Anual: €150.000
Lucro Líquido: €30.000 (20% margem)
Stock e Equipamentos: €25.000
Localização Premium: Sim
CÁLCULO:
Múltiplo de lucro (3x): €90.000
+ Stock e equipamentos: €25.000
= Valor Base: €115.000
+ Prémio localização (15%): €17.250
= VALOR ESTIMADO: €132.250
Fatores que Influenciam o Valor
Aumentam o valor:
- Localização privilegiada
- Clientela fiel e recorrente
- Contratos favoráveis de arrendamento
- Licenças difíceis de obter
- Marca reconhecida
Diminuem o valor:
- Contrato de arrendamento precário
- Concorrência intensa na zona
- Dependência de poucos clientes
- Equipamentos obsoletos
- Funcionários-chave que podem sair
Para uma avaliação mais detalhada, consulte o nosso guia sobre Como Avaliar uma Empresa para Compra.
Due Diligence no Trespasse
Antes de concretizar um trespasse, é essencial realizar uma verificação completa do negócio:
Checklist de Due Diligence
Aspetos Jurídicos:
- Titularidade do estabelecimento
- Contrato de arrendamento (prazo, condições, renovação)
- Licenças e alvarás em vigor
- Litígios pendentes
- Ónus ou encargos sobre os bens
Aspetos Financeiros:
- Faturação real (verificar com documentação fiscal)
- Margens de lucro
- Sazonalidade do negócio
- Dívidas a fornecedores (não se transferem, mas afetam relações comerciais)
Aspetos Operacionais:
- Estado dos equipamentos
- Contratos com fornecedores
- Situação dos trabalhadores
- Conformidade ambiental e urbanística
Período de Due Diligence
As novas regras de 2025 introduziram um período obrigatório de due diligence de 30 dias para trespasses de valor superior a €50.000, durante o qual o comprador pode:
- Aceder à documentação completa
- Verificar informações prestadas
- Solicitar esclarecimentos
- Desistir sem penalização se encontrar irregularidades materiais
Passo a Passo do Processo de Trespasse
1. Negociação e Acordo de Princípio
- Definição do preço e condições
- Assinatura de acordo de confidencialidade
- Pagamento de sinal (tipicamente 10-20%)
2. Due Diligence (30 dias)
- Análise de documentação
- Verificação de licenças
- Confirmação de dados financeiros
3. Notificação ao Senhorio
- Carta registada com A/R
- Prazo mínimo de 15 dias
- Aguardar exercício de preferência (8 dias)
4. Elaboração do Contrato
- Redação por advogado
- Inclusão de todas as cláusulas essenciais
- Assinatura com reconhecimento de assinaturas
5. Comunicações Obrigatórias
- Finanças (AT) - alteração de titularidade
- Segurança Social - trabalhadores
- Câmara Municipal - licenças
- Fornecedores e prestadores de serviços
6. Tomada de Posse
- Entrega das chaves
- Inventário final
- Pagamento do valor remanescente
Perguntas Frequentes
O trespasse requer escritura pública?
Não. Desde 1990, com a revogação do antigo artigo 1118.º do Código Civil, o trespasse não requer escritura pública. Basta um contrato escrito assinado pelas partes, preferencialmente com reconhecimento de assinaturas. No entanto, se o trespasse incluir imóveis, a escritura pública será necessária para a transmissão imobiliária.
As dívidas do estabelecimento transferem-se no trespasse?
Não automaticamente. O novo proprietário (trespassário) responde apenas pelos ativos transmitidos, não pelo passivo do estabelecimento. As dívidas só se transferem se houver acordo expresso com os credores. Por isso, o trespasse é frequentemente preferido à cessão de quotas quando existem passivos significativos.
Posso fazer trespasse de um negócio arrendado sem autorização do senhorio?
Sim, nos termos do artigo 1118.º do Código Civil, a transmissão da posição de arrendatário não depende de autorização do senhorio. Contudo, é obrigatório comunicar o trespasse ao senhorio com pelo menos 15 dias de antecedência, e o senhorio tem direito de preferência que deve exercer em 8 dias.
Quanto tempo demora um processo de trespasse?
Um trespasse típico demora entre 4 a 8 semanas, dependendo da complexidade:
- Due diligence: 2-4 semanas
- Negociação e contrato: 1-2 semanas
- Notificações e formalidades: 1-2 semanas Operações mais complexas ou com financiamento podem demorar 2-3 meses.
Qual é o custo médio de um trespasse em Portugal?
Os custos associados ao trespasse incluem:
- Honorários de advogado: €1.000-3.000
- IMT (se aplicável): 6,5% do valor
- Imposto de Selo: 0,8% do valor
- Registos e certidões: €200-500
- Avaliação independente: €500-1.500 Para um trespasse de €100.000 com arrendamento, os custos rondam €10.000-12.000.
Fontes Primárias
| Fonte | Tipo | URL |
|---|---|---|
| Código Civil (art. 1112.º e segs.) | Legislação | dre.pt |
| Portal das Finanças | Fiscal | portaldasfinancas.gov.pt |
| IAPMEI | Apoio a PMEs | iapmei.pt |
| Ordem dos Advogados | Regulador | oa.pt |
| ACT - Autoridade para as Condições do Trabalho | Laboral | act.gov.pt |
Conclusão
O trespasse é uma forma eficaz e relativamente simples de adquirir um negócio em funcionamento em Portugal. As suas principais vantagens são:
- Não assumir dívidas do anterior proprietário
- Processo mais simples que a cessão de quotas
- Transmissão automática da posição de arrendatário
- Continuidade operacional imediata
No entanto, é fundamental:
- Realizar due diligence completa antes de avançar
- Notificar corretamente o senhorio para evitar resolução do arrendamento
- Estruturar fiscalmente a operação de forma eficiente
- Incluir cláusula de não concorrência robusta no contrato
- Consultar advogado especializado para transações significativas
Com as alterações legais de 2025/2026, o trespasse está sujeito a requisitos mais exigentes de documentação e transparência, mas continua a ser a opção preferida para a transmissão de pequenos e médios estabelecimentos comerciais em Portugal.
Próximos Passos
Se está a considerar um trespasse, comece por avaliar corretamente o negócio-alvo. Consulte o nosso guia sobre Como Avaliar uma Empresa para Compra para entender os métodos de avaliação mais adequados. Explore também os nossos outros guias sobre compra e venda de empresas para uma preparação completa.