Trespasse de Negócio em Portugal: Guia Completo 2026

Guia definitivo sobre trespasse de estabelecimento comercial em Portugal. Legislação, fiscalidade, documentação, direitos do senhorio e como calcular o valor. Atualizado com as novas regras de 2025/2026.

Especialista M&A
13 min de leitura

O que é trespasse de negócio em Portugal?

O trespasse é a transmissão definitiva da propriedade de um estabelecimento comercial ou industrial, incluindo todos os elementos (bens, clientela, licenças, contratos). Está regulado pelo artigo 1112.º do Código Civil e não requer escritura pública - basta contrato escrito. O senhorio deve ser notificado com 15 dias de antecedência e tem direito de preferência.

Fonte: Artigo 1112.º do Código Civil Português

Sumário Executivo

O trespasse de negócio é uma das formas mais comuns de adquirir um estabelecimento comercial em Portugal. Diferente da cessão de quotas (onde se compra a sociedade), no trespasse compra-se diretamente o estabelecimento - a loja, o café, o restaurante - com toda a sua organização produtiva.

Ponto Principal: O trespasse permite adquirir um negócio já em funcionamento, com clientela estabelecida, fornecedores e licenças, sem assumir as dívidas da sociedade anterior (salvo acordo expresso).

Aviso Importante: Com as alterações legais de 2025/2026, o trespasse está sujeito a maior escrutínio fiscal, laboral e regulatório. Um trespasse mal estruturado pode resultar em litígios significativos e perda de valor. Recomenda-se sempre consultar um advogado especializado.


O Que é Exatamente o Trespasse?

Processo de Trespasse de Negócio em Portugal - Infográfico com as 5 etapas principais

O trespasse está definido no artigo 1112.º do Código Civil como a transmissão definitiva da propriedade de um estabelecimento comercial ou industrial. Esta transmissão assegura o subingresso de um novo sujeito no exercício da atividade empresarial, garantindo a continuidade da exploração dos valores económicos e produtivos do estabelecimento.

Elementos Incluídos no Trespasse

Quando se realiza um trespasse, transmitem-se tipicamente:

ElementoDescriçãoTransferência
Fundo de ComércioClientela, localização, reputaçãoAutomática
Bens MóveisEquipamentos, mobiliário, stockSupletiva (salvo acordo)
LicençasAlvarás, licenças de atividadeRequer comunicação às autoridades
ContratosFornecedores, prestadores de serviçosRequer consentimento ou novação
ArrendamentoPosição de arrendatárioAutomática (art. 1118.º CC)
TrabalhadoresContratos de trabalhoMantêm-se (art. 285.º Código Trabalho)

Requisito Fundamental: Manutenção do Ramo de Atividade

Para que o trespasse seja válido, o ramo de negócio deve manter-se o mesmo. A Lei determina expressamente que não há trespasse se, no momento do negócio, existia intenção de exercer no imóvel outro ramo de comércio ou indústria.

Exemplo: Transformar um snack-bar num restaurante constitui criação de novo estabelecimento, não trespasse. Isto pode invalidar o direito de sub-rogação no arrendamento e sujeitar a operação a tratamento fiscal diferente.


Trespasse vs. Cessão de Quotas: Qual Escolher?

Uma das dúvidas mais frequentes é quando usar trespasse e quando usar cessão de quotas. São operações fundamentalmente diferentes:

AspetoTrespasseCessão de Quotas
O que se transmiteEstabelecimento (ativos)Participações sociais (empresa)
DívidasNão se transferem (salvo acordo)Transferem-se com a sociedade
Passivos ocultosMenor riscoMaior risco
LicençasPodem exigir nova emissãoMantêm-se na sociedade
Contrato de trabalhoTransferência automáticaMantêm-se na sociedade
FiscalidadeIMT, IVA, mais-valiasIRC sobre mais-valias
ComplexidadeMenorMaior

Quando Usar Trespasse

O trespasse é preferível quando:

  • Se pretende adquirir apenas o estabelecimento operacional
  • A sociedade tem dívidas ou passivos que não se deseja assumir
  • O negócio funciona em espaço arrendado
  • Se trata de pequenos negócios (cafés, restaurantes, lojas)

Quando Usar Cessão de Quotas

A cessão de quotas é preferível quando:

  • A sociedade detém ativos valiosos (imóveis, licenças especiais)
  • Existem benefícios fiscais acumulados (prejuízos, créditos)
  • Os contratos importantes estão em nome da sociedade
  • Se pretende continuidade jurídica total

Dica: Independentemente da opção escolhida, é essencial conhecer os métodos de avaliação empresarial para negociar o preço justo.


O Direito do Senhorio no Trespasse

Uma das particularidades do trespasse é a relação com o senhorio do imóvel arrendado. O artigo 1118.º do Código Civil permite a transmissão da posição do arrendatário sem dependência de autorização do senhorio em caso de trespasse.

Comunicação Obrigatória

Embora não necessite de autorização, o trespasse deve ser comunicado ao senhorio:

  • Prazo: Carta registada com aviso de receção, com antecedência mínima de 15 dias
  • Conteúdo: Identificação do trespassário, condições do trespasse
  • Consequência da omissão: Direito do senhorio resolver o contrato

Direito de Preferência

O senhorio possui direito de preferência sobre o trespasse, nos termos do artigo 1102.º do Código Civil:

  1. O trespassante deve notificar o senhorio das condições do negócio
  2. O senhorio tem 8 dias para exercer a preferência
  3. Silêncio após 8 dias implica renúncia ao direito

Atenção: O senhorio pode resolver o contrato de arrendamento se não se verificar a manutenção do ramo de negócio após o trespasse.

Exceções ao Direito de Sub-rogação

A transmissão automática da posição de arrendatário não se aplica quando:

  • Existe cláusula contratual válida em contrário
  • O destino do imóvel vai ser alterado
  • Há intenção de mudar o ramo de atividade

Fiscalidade do Trespasse

A tributação do trespasse envolve vários impostos, dependendo da estrutura da operação:

IMT (Imposto Municipal sobre Transmissões)

SituaçãoTaxa IMTObservações
Trespasse só com fundo de comércioIsentoSem imóvel ou direito real
Trespasse com arrendamento comercial6,5%Sobre valor do trespasse
Trespasse com imóvel próprio6,5% (comercial)Pode chegar a 7,5%

Base de cálculo: O IMT incide sobre o valor do trespasse quando inclui posição de arrendatário ou transmissão de imóvel.

IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado)

O trespasse pode estar:

  • Isento de IVA (artigo 3.º, n.º 4 do CIVA) - quando é transmissão universal do estabelecimento como unidade económica
  • Sujeito a IVA 23% - quando os bens corpóreos são faturados separadamente (mais de 10% do valor total)

Regra prática: Se o trespasse é global e inclui toda a unidade económica em funcionamento, beneficia geralmente de isenção de IVA.

Mais-Valias (IRS/IRC)

A diferença entre o valor de venda e o custo de aquisição constitui mais-valia tributável:

RegimeTaxaObservações
Pessoa Singular (IRS)Até 48%50% da mais-valia é tributada aos escalões
Pessoa Coletiva (IRC)21% + derramaPode deduzir se reinvestir

Exemplo de cálculo (pessoa singular):

Valor de Trespasse:        €100.000
Custo de Aquisição:         €60.000
Mais-valia Bruta:           €40.000
Mais-valia Tributável (50%): €20.000
Imposto (escalão médio 35%): €7.000

Imposto de Selo

Aplica-se 0,8% sobre o valor do trespasse (Tabela Geral do Imposto de Selo), pago em 30 dias após a escrituração do contrato.


Documentação Necessária para o Trespasse

Documentos do Estabelecimento

Documentação a Reunir

  • Inventário detalhado e atualizado de todos os bens
  • Contratos em vigor (arrendamento, fornecedores, trabalhadores)
  • Licenças de atividade e alvarás
  • Balanços e demonstrações financeiras (últimos 3 anos)
  • Certidões fiscais (AT, Segurança Social)
  • Registo de trabalhadores
  • Certificação energética (se aplicável)
  • Relatório de avaliação independente (obrigatório desde 2025)

O Contrato de Trespasse

O contrato de trespasse deve ser obrigatoriamente escrito (artigo 1112.º, n.º 3 do CC), sob pena de nulidade. Não é necessária escritura pública.

Cláusulas essenciais:

  1. Identificação das partes (trespassante e trespassário)
  2. Descrição completa do estabelecimento e elementos transmitidos
  3. Preço e forma de pagamento
  4. Data de entrega e tomada de posse
  5. Declarações e garantias do vendedor
  6. Cláusula de não concorrência (fundamental!)
  7. Condições suspensivas (se aplicável)

Obrigação de Não Concorrência

O trespassante assume obrigação implícita de não concorrência, mesmo que não esteja expressa no contrato:

  • Aplica-se diretamente ou através de interposta pessoa
  • Abrange período razoável após o trespasse (tipicamente 2-5 anos)
  • Inclui área geográfica de influência do estabelecimento

Jurisprudência: Os tribunais portugueses admitem a desconsideração da personalidade jurídica quando uma sociedade é criada especificamente para contornar a obrigação de não concorrência.


Como Calcular o Valor de um Trespasse

Não existe fórmula legal para calcular o valor de um trespasse. O preço resulta da negociação entre as partes, considerando:

Métodos de Avaliação

MétodoFórmula IndicativaQuando Usar
Múltiplo de Lucros2-4x Lucro Líquido AnualNegócios estáveis e rentáveis
Múltiplo de Faturação0,3-1x Volume de NegóciosNegócios em crescimento
Valor dos AtivosStock + Equipamentos + FundoNegócios com ativos tangíveis

Exemplo Prático de Avaliação

Café/Snack-bar em Lisboa:

Faturação Anual:           €150.000
Lucro Líquido:              €30.000 (20% margem)
Stock e Equipamentos:       €25.000
Localização Premium:        Sim

CÁLCULO:
Múltiplo de lucro (3x):     €90.000
+ Stock e equipamentos:     €25.000
= Valor Base:              €115.000
+ Prémio localização (15%): €17.250
= VALOR ESTIMADO:          €132.250

Fatores que Influenciam o Valor

Aumentam o valor:

  • Localização privilegiada
  • Clientela fiel e recorrente
  • Contratos favoráveis de arrendamento
  • Licenças difíceis de obter
  • Marca reconhecida

Diminuem o valor:

  • Contrato de arrendamento precário
  • Concorrência intensa na zona
  • Dependência de poucos clientes
  • Equipamentos obsoletos
  • Funcionários-chave que podem sair

Para uma avaliação mais detalhada, consulte o nosso guia sobre Como Avaliar uma Empresa para Compra.


Due Diligence no Trespasse

Antes de concretizar um trespasse, é essencial realizar uma verificação completa do negócio:

Checklist de Due Diligence

Aspetos Jurídicos:

  • Titularidade do estabelecimento
  • Contrato de arrendamento (prazo, condições, renovação)
  • Licenças e alvarás em vigor
  • Litígios pendentes
  • Ónus ou encargos sobre os bens

Aspetos Financeiros:

  • Faturação real (verificar com documentação fiscal)
  • Margens de lucro
  • Sazonalidade do negócio
  • Dívidas a fornecedores (não se transferem, mas afetam relações comerciais)

Aspetos Operacionais:

  • Estado dos equipamentos
  • Contratos com fornecedores
  • Situação dos trabalhadores
  • Conformidade ambiental e urbanística

Período de Due Diligence

As novas regras de 2025 introduziram um período obrigatório de due diligence de 30 dias para trespasses de valor superior a €50.000, durante o qual o comprador pode:

  • Aceder à documentação completa
  • Verificar informações prestadas
  • Solicitar esclarecimentos
  • Desistir sem penalização se encontrar irregularidades materiais

Passo a Passo do Processo de Trespasse

1. Negociação e Acordo de Princípio

  • Definição do preço e condições
  • Assinatura de acordo de confidencialidade
  • Pagamento de sinal (tipicamente 10-20%)

2. Due Diligence (30 dias)

  • Análise de documentação
  • Verificação de licenças
  • Confirmação de dados financeiros

3. Notificação ao Senhorio

  • Carta registada com A/R
  • Prazo mínimo de 15 dias
  • Aguardar exercício de preferência (8 dias)

4. Elaboração do Contrato

  • Redação por advogado
  • Inclusão de todas as cláusulas essenciais
  • Assinatura com reconhecimento de assinaturas

5. Comunicações Obrigatórias

  • Finanças (AT) - alteração de titularidade
  • Segurança Social - trabalhadores
  • Câmara Municipal - licenças
  • Fornecedores e prestadores de serviços

6. Tomada de Posse

  • Entrega das chaves
  • Inventário final
  • Pagamento do valor remanescente

Perguntas Frequentes

O trespasse requer escritura pública?

Não. Desde 1990, com a revogação do antigo artigo 1118.º do Código Civil, o trespasse não requer escritura pública. Basta um contrato escrito assinado pelas partes, preferencialmente com reconhecimento de assinaturas. No entanto, se o trespasse incluir imóveis, a escritura pública será necessária para a transmissão imobiliária.

As dívidas do estabelecimento transferem-se no trespasse?

Não automaticamente. O novo proprietário (trespassário) responde apenas pelos ativos transmitidos, não pelo passivo do estabelecimento. As dívidas só se transferem se houver acordo expresso com os credores. Por isso, o trespasse é frequentemente preferido à cessão de quotas quando existem passivos significativos.

Posso fazer trespasse de um negócio arrendado sem autorização do senhorio?

Sim, nos termos do artigo 1118.º do Código Civil, a transmissão da posição de arrendatário não depende de autorização do senhorio. Contudo, é obrigatório comunicar o trespasse ao senhorio com pelo menos 15 dias de antecedência, e o senhorio tem direito de preferência que deve exercer em 8 dias.

Quanto tempo demora um processo de trespasse?

Um trespasse típico demora entre 4 a 8 semanas, dependendo da complexidade:

  • Due diligence: 2-4 semanas
  • Negociação e contrato: 1-2 semanas
  • Notificações e formalidades: 1-2 semanas Operações mais complexas ou com financiamento podem demorar 2-3 meses.
Qual é o custo médio de um trespasse em Portugal?

Os custos associados ao trespasse incluem:

  • Honorários de advogado: €1.000-3.000
  • IMT (se aplicável): 6,5% do valor
  • Imposto de Selo: 0,8% do valor
  • Registos e certidões: €200-500
  • Avaliação independente: €500-1.500 Para um trespasse de €100.000 com arrendamento, os custos rondam €10.000-12.000.

Fontes Primárias

FonteTipoURL
Código Civil (art. 1112.º e segs.)Legislaçãodre.pt
Portal das FinançasFiscalportaldasfinancas.gov.pt
IAPMEIApoio a PMEsiapmei.pt
Ordem dos AdvogadosReguladoroa.pt
ACT - Autoridade para as Condições do TrabalhoLaboralact.gov.pt

Conclusão

O trespasse é uma forma eficaz e relativamente simples de adquirir um negócio em funcionamento em Portugal. As suas principais vantagens são:

  1. Não assumir dívidas do anterior proprietário
  2. Processo mais simples que a cessão de quotas
  3. Transmissão automática da posição de arrendatário
  4. Continuidade operacional imediata

No entanto, é fundamental:

  • Realizar due diligence completa antes de avançar
  • Notificar corretamente o senhorio para evitar resolução do arrendamento
  • Estruturar fiscalmente a operação de forma eficiente
  • Incluir cláusula de não concorrência robusta no contrato
  • Consultar advogado especializado para transações significativas

Com as alterações legais de 2025/2026, o trespasse está sujeito a requisitos mais exigentes de documentação e transparência, mas continua a ser a opção preferida para a transmissão de pequenos e médios estabelecimentos comerciais em Portugal.

Próximos Passos

Se está a considerar um trespasse, comece por avaliar corretamente o negócio-alvo. Consulte o nosso guia sobre Como Avaliar uma Empresa para Compra para entender os métodos de avaliação mais adequados. Explore também os nossos outros guias sobre compra e venda de empresas para uma preparação completa.

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